Opinião - Wellington Bessa
A tradicional Cavalgada do Torto, no distrito de São
José do Torto, em Sobral, que acontece neste sábado (21/03), deve repetir um
roteiro já conhecido: a cultura e a tradição dividindo ou até cedendo, espaço
para a política.
Neste ano, o evento entra de vez no radar das
articulações estaduais. A lista de presenças confirma que o interesse vai muito
além da cavalgada. Estão previstos nomes como o deputado federal Moses
Rodrigues, cotado para o Senado; o senador Cid Gomes, uma das figuras mais
influentes da política cearense; e o deputado federal Júnior Mano, também
apontado como pré-candidato.
No caso de Júnior Mano, a presença ocorre em meio a
um cenário delicado. O parlamentar teve o nome citado em relatório da Polícia
Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que aponta supostas
irregularidades envolvendo recursos públicos e campanhas eleitorais. Mesmo sem
desfecho definitivo, o episódio amplia o peso político — e simbólico — de sua
participação em um evento público dessa dimensão.
Com esse cenário, a cavalgada deixa de ser apenas
uma manifestação cultural e passa a funcionar como vitrine eleitoral
antecipada. Discursos, aparições estratégicas, cumprimentos e registros para
redes sociais devem fazer parte do roteiro, um movimento cada vez mais comum
em eventos populares no interior.
Não há dúvida de que o distrito ganha com o fluxo de
pessoas e o aquecimento da economia local. Mas também é inevitável questionar:
até que ponto a tradição está sendo preservada, e em que momento passa a ser
apenas pano de fundo para interesses políticos?
A programação musical, com Forró Real e Júnior
Viana, financiada com recursos públicos municipais e apoio federal, reforça
ainda mais a dimensão do evento e, consequentemente, sua atratividade para quem
busca visibilidade.
Outro ponto que merece atenção é a organização. Por
se tratar de um evento público, é essencial que haja estrutura adequada,
respeito ao público e transparência. A linha entre o público e o privado não
pode ser ultrapassada sob nenhuma justificativa.
No fim, a Cavalgada do Torto segue sendo uma grande
festa. Mas, cada vez mais, também se consolida como um palco onde a política
cavalga à frente da tradição.
E, como de costume, a imprensa estará atenta, não
apenas aos passos dos cavalos, mas aos movimentos de quem tenta conduzir o jogo
político.
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