sexta-feira, 20 de março de 2026

Cavalgada do Torto entra no jogo político e antecipa disputa estadual

 


Opinião - Wellington Bessa

A tradicional Cavalgada do Torto, no distrito de São José do Torto, em Sobral, que acontece neste sábado (21/03), deve repetir um roteiro já conhecido: a cultura e a tradição dividindo ou até cedendo, espaço para a política.

Neste ano, o evento entra de vez no radar das articulações estaduais. A lista de presenças confirma que o interesse vai muito além da cavalgada. Estão previstos nomes como o deputado federal Moses Rodrigues, cotado para o Senado; o senador Cid Gomes, uma das figuras mais influentes da política cearense; e o deputado federal Júnior Mano, também apontado como pré-candidato.

No caso de Júnior Mano, a presença ocorre em meio a um cenário delicado. O parlamentar teve o nome citado em relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), que aponta supostas irregularidades envolvendo recursos públicos e campanhas eleitorais. Mesmo sem desfecho definitivo, o episódio amplia o peso político — e simbólico — de sua participação em um evento público dessa dimensão.

Com esse cenário, a cavalgada deixa de ser apenas uma manifestação cultural e passa a funcionar como vitrine eleitoral antecipada. Discursos, aparições estratégicas, cumprimentos e registros para redes sociais devem fazer parte do roteiro, um movimento cada vez mais comum em eventos populares no interior.

Não há dúvida de que o distrito ganha com o fluxo de pessoas e o aquecimento da economia local. Mas também é inevitável questionar: até que ponto a tradição está sendo preservada, e em que momento passa a ser apenas pano de fundo para interesses políticos?

A programação musical, com Forró Real e Júnior Viana, financiada com recursos públicos municipais e apoio federal, reforça ainda mais a dimensão do evento e, consequentemente, sua atratividade para quem busca visibilidade.

Outro ponto que merece atenção é a organização. Por se tratar de um evento público, é essencial que haja estrutura adequada, respeito ao público e transparência. A linha entre o público e o privado não pode ser ultrapassada sob nenhuma justificativa.

No fim, a Cavalgada do Torto segue sendo uma grande festa. Mas, cada vez mais, também se consolida como um palco onde a política cavalga à frente da tradição.

E, como de costume, a imprensa estará atenta, não apenas aos passos dos cavalos, mas aos movimentos de quem tenta conduzir o jogo político.

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