Foto: Ismael Soares
Fonte: Diário do Nordeste
A quadra do Ginásio Poliesportivo de Juazeiro do
Norte, palco de disputas esportivas, animação e momentos de lazer, teve um uso
diferente nesta terça-feira (16). O local foi onde mais de 5 mil pessoas se
despediram dos atletas do time Basquete Juazeiro do Norte, vítimas de um
acidente de ônibus no Ceará.
O adeus aos 7 atletas foi marcado por diferentes
homenagens, desde eventos religiosos, velório coletivo e cortejo pelas ruas de
Juazeiro do Norte antes dos enterros. Ao longo do dia, familiares, amigos, colegas,
professores e gestores se emocionaram ao falarem sobre as vítimas e mencionarem
a tragédia.
Equipe do Diário do Nordeste esteve em Juazeiro do
Norte e presenciou o luto coletivo que marca a cidade desde a última segunda-feira,
dia do acidente.
“Nunca quis ver essa quadra dessa forma”, disse o
treinador do time, Ricardo Lemos. Ele foi um dos sobreviventes do trágico
capotamento na CE-187, em Tauá, que deixou sete jovens mortos:
Marcos Miguel, assistente técnico do time, 22 anos;
Henrique Ferreira Bezerra, 17 anos;
João Paulo Sampaio de Alencar, 18 anos;
Luiz José de Morais Neto, 18 anos;
Cauã Rodrigues Fratta, 16 anos;
Jonatas Samuel dos Santos Lopes, 15 anos;
Matheus Henrique Ferreira, 15 anos.
O ônibus que transportava a delegação de 41 pessoas
vinha de Sobral, onde o time ganhou um campeonato da categoria sub-19. Essa foi
a ocorrência com mais mortes de ocupantes de ônibus registrada no Ceará nos
últimos 12 anos.
Durante homenagem no velório coletivo realizado no
Ginásio, Ricardo Lemos relembrou o legado dos atletas que, para ele, também
eram como filhos.
“A gente estava em Sobral fazendo uma coisa que a
gente se preparou para fazer, que a gente ama: jogar basquete, estar juntos,
defender o nosso símbolo,
defender nossa cidade. Estávamos muito felizes por
termos sido campeões”, disse Ricardo.
O contraste entre a dor da perda e a celebração de
quem os jovens foram em vida estava por todo lado.
Em um mural disposto na entrada da quadra, mensagens
foram deixadas com palavras curtas de adeus: “sempre será lembrado”, “te amo
para sempre”, “eterno campeão”. Projeções nas paredes mostravam momentos
felizes e de descontração vividos com as vítimas.
Mulher de blusa preta de mangas longas escreve
mensagem em folha pregada na parede. Na folha, é possível ler outras mensagens
escritas anteriormente.
João Neto Lopes, pai de Jonatas Samuel dos Santos
Lopes, de 15 anos, relatou os sentimentos de dor e tristeza pela partida do
filho, mas também de alegria e esperança pelas lembranças boas.
"Deus está alegre e eu também estou alegre, porque
meu filho viveu comigo esses 15 anos, nunca me deu trabalho, só me deu alegria.
Era um filho obediente, filho bom, um filho que não dava trabalho, um filho
estudioso. As pessoas admiravam, gostavam... é isso que tenho do Jonatas”
José Neto Lopes
pai de Jonatas Samuel, vítima do acidente
O amor por Cauã Rodrigues Fratta, de 16 anos, foi
palpável no discurso da namorada, Amanda Helen. A jovem descreveu memórias de
cuidado, carinho e atenção vividas ao lado do atleta. Na sexta-feira (12), Dia
dos Namorados, Cauã teria comprado alianças para os dois.
“Eu tive a oportunidade de amar ele com todas as
minhas forças. Ele me ensinou muita coisa. A gente se conheceu quando eu estava
nas minhas crises de ansiedade. Ele me ensinou a controlar tudo, a cheirar a
florzinha e assoprar a velinha. Ele me salvou. Vai ficar no coração de todo
mundo que verdadeiramente conheceu ele”, contou.
Alguns dos membros do time que também estavam no
ônibus conseguiram comparecer ao velório. Saul Barbosa, parte da equipe de
apoio, foi um dos sobreviventes que ajudou a retirar feridos e chamar socorro.
“As coisas que eu vi naquele ônibus não foram
legais. A única coisa que eu tenho que fazer é passar pelo luto, rezar por
todos eles”, disse.
Para Saul, os atletas mostraram que a vida é boa,
mas também curta. Ensinamentos trazidos por todos, mas principalmente por
Marcos Miguel, assistente técnico do time de 22 anos, sempre estarão na
memória, conforme o jovem.
‘Trocaria
minha vida pelo lugar daqueles meninos’, diz treinador de atletas mortos em
acidente de Tauá
Bruno Lira da Silva, de 18 anos, mesmo ainda
tratando fraturas no braço decorrentes do acidente, deixou o hospital para se
despedir dos colegas. Ele era um dos três jovens que ainda estavam internados
no Hospital Regional do Cariri até a tarde de terça-feira.
Segundo ele, o momento do acidente foi apagado,
restando apenas “flashbacks” da comemoração. “A gente comemorou o máximo que
conseguiu, infelizmente veio a acontecer essa tragédia, mas a gente conseguiu aproveitar
ao máximo”, contou.
A data desta terça-feira foi descrita como “cruel”
por João Neto, irmão de Luiz José de Morais Neto, 18 anos. No entanto, o
familiar do jovem se agarrou na fé e na “esperança que transcende o que vai
além da morte”. “Todos que estão aqui são mais do que vencedores. Isso não é um
adeus.”
Foto mostra, em primeiro plano, pessoas carregando
uma coroa de flores brancas. Ao fundo, a bandeira de Juazeiro do Norte está
estendida na arquibancada do ginásio.
Missa
e cortejo comoveram Juazeiro do Norte
Após o velório no Ginásio e a missa de corpo
presente, uma chuva de pétalas de rosas caiu sobre as urnas funerárias enquanto
os falecidos eram homenageados com salvas de palmas.
Uma multidão acompanhou a saída do cortejo para
cinco cemitérios diferentes nas cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha.
O trajeto passou em frente à Escola de Ensino Médio
de Tempo Integral Presidente Geisel (Polivalente), que tinha um estudante
matriculado e dois ex-alunos entre as vítimas.
As escolas da rede estadual que funcionam na cidade
tiveram as aulas suspensas e a Prefeitura de Juazeiro do Norte decretou luto
oficial de sete dias.