informalmente no Ceará
por valores entre R$ 1 e R$ 10 pode render até R$ 1.500 na China após ser
processado para a extração de pele e colágeno para a indústria de cosméticos.
Apesar desse animal
movimentar um mercado milionário na Ásia, o comércio da espécie não traz
oportunidades viáveis e sustentáveis para o agronegócio local. Pelo contrário:
a atividade ameaça a reputação do setor pela falta de rastreabilidade.
Na última quarta-feira
(20), a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) aprovou a
Sugestão Legislativa de proibir o abate de jumentos em todo o território
nacional. Agora, de acordo com a Agência Senado, a SUG 9/2025 passará a
tramitar como projeto de lei.
Como
justificativa para a decisão, foi levantado não só o viés de proteção
animal e o risco de extinção, mas também a necessidade de preservar a imagem do
agronegócio brasileiro frente aos riscos sanitários promovidos pela forma
informal como a atividade se dá no País.
Por que um produto tão
lucrativo no exterior não representa negócio viável para o agro cearense?
De acordo com relatório
da organização The Donkey Sanctuary, um estudo publicado pela Universidade de
Reading sugere que um rebanho criado com 200.000 fêmeas de jumentos em
condições altamente favoráveis levaria 15 anos ou mais para fornecer 1,2 milhão
de peles. A demanda anual da indústria do ejiao, no entanto, é de, pelo menos,
5,9 milhões.
Conforme explica a
coordenadora de campanhas para a América da The Donkey Sanctuary, Patrícia
Tatemoto, a gestação da fêmea do animal dura cerca de 12 a 13 meses, e
normalmente nasce apenas um filhote por vez. Já a maturidade reprodutiva e o
desenvolvimento físico completo levam entre três a cinco anos para ocorrer.
“Na pecuária comercial,
muitas fêmeas bovinas já entram em reprodução entre 14 e 24 meses, e a gestação
das vacas dura cerca de 9 meses”, explica a especialista.
Além disso, a espécie é
altamente responsiva ao estresse, ao transporte prolongado e à superlotação, o
que eleva o índice de abortos das fêmeas e morte dos animais, expõe a
estudiosa.
"Isso significa
que a velocidade de abate dos animais para atender à demanda industrial é muito
maior do que a capacidade de reposição populacional da espécie. O jumento não
pode ser comparado à lógica produtiva de aves, suínos ou bovinos. Tanto isso é
verdade que nem a China tem conseguido atender à demanda"
Patrícia Tatemoto
De acordo com ela, no
Brasil, a função do jumento sempre esteve mais ligada ao trabalho rural
justamente porque a reprodução lenta inviabiliza economicamente um sistema
industrial semelhante ao da pecuária convencional.
Paralelamente, Tatemoto
lembra que a carcaça bovina possui rendimento e valor comercial muito
superiores à do jumento, o que sustenta a viabilidade econômica da
bovinocultura em escala.
Nesse contexto, o que
resta é um comércio informal baseado, principalmente, na captura de animais
abandonados.
"É exatamente por
essa razão que nenhum grande grupo do agronegócio no Brasil se interessou em
desenvolver uma cadeia formal de criação de jumentos até hoje. Em nenhum lugar
do mundo a venda de peles de jumentos é economicamente viável diante da atual e
crescente demanda do mercado de ejiao", salienta.
A inviabilidade de um
mercado estruturado também é apontada pela professora da pós-graduação em
Ciência Animal da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Débora
Façanha.
“Eu acho muito difícil
alguém dizer: ‘Agora eu vou ser criador de jumento para vender para a China’.
Até a pessoa juntar os animais, sistematizar o manejo… uma cadeia produtiva tem
que ter regularidade na entrega. Então, ter essa regularidade, abastecer o
mercado externo, eu acho que no momento é inviável. Dificilmente uma pessoa vai
deixar de investir em gado, que já é um comércio certo, tanto pro exterior como
para o mercado interno”
Débora Façanha
Professora da
pós-graduação em Ciência Animal da Ufersa
Questionada sobre o
comércio relacionado à espécie no Estado, a Secretaria do Desenvolvimento
Econômico do Ceará (SDE) informou que não existe trabalho comercial voltado
para o animal.
“Não havendo esse tipo
de atividade, consequentemente não existe um monitoramento, e tampouco temos
ciência de empresários interessados em investir, pois sabemos que este tipo de
atividade sempre foi tratada praticamente como informal”, destaca a nota enviada
ao Diário do Nordeste.
A reportagem também
procurou o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mas não obteve retorno
até a publicação desta matéria. Em caso de resposta, o conteúdo será
atualizado.
Comercialização baseada
em jumentos abandonados ameaça agronegócio brasileiro, diz especialista
Atualmente, a
comercialização dos jumentos no Ceará é baseada na captura de animais
abandonados ou na compra barata da espécie.
Segundo Patrícia, os
bichos são reunidos em fazendas de espera e depois transportados até a Bahia,
onde estão localizados os três frigoríficos brasileiros responsáveis pela
exportação do produto para a China, nas cidades de Amargosa, Itapetinga e
Simões Filho.
Com foco na pele, a
carne acaba funcionando mais como subproduto, pouco ou nada aproveitada.
Conforme relatório da The Donkey Sanctuary, durante o processo, os animais são
privados de água, alimentação e cuidados veterinários. A estimativa da entidade
é que 20% dos animais morrem no transporte por maus tratos.
"O problema é que
há pouca transparência pública sobre a origem dos animais, volume abatido,
condições sanitárias, rotas de transporte, rastreabilidade e descarte das
carcaças. Hoje, nem mesmo existe um código aduaneiro específico para pele de
jumento no Brasil, o que dificulta acompanhar o tamanho real dessa
atividade", pondera a estudiosa.
“A circulação de
animais sem vigilância sanitária adequada fragiliza o controle sanitário
brasileiro como um todo. Além disso, episódios recorrentes de abandono de carcaças
e transporte inadequado geram preocupação ambiental e afetam a imagem
internacional do agronegócio brasileiro. A atividade de comércio de peles de
jumentos tem um risco reputacional enorme para o agronegócio brasileiro”
Patrícia Tatemoto
Coordenadora de
campanhas para a América da The Donkey Sanctuary
De acordo com a The
Donkey Sanctuary, a inexistência da rastreabilidade da atividade carrega um
risco sanitário que pode comprometer a reputação do agronegócio brasileiro e a
economia do País, prejudicando as relações com outras nações. Isso porque a
falta de uma origem segura para os animais aumenta o risco de disseminação de
doenças entre equídeos, como o mormo, zoonose que apresenta letalidade de 95%
para humanos.
Ceará já perdeu 72% da
população de asininos
Devido ao abate
predatório e à lenta reprodução, estudos apontam que o jumento nordestino pode
entrar em extinção.
Segundo relatório da
The Donkey Sanctuary, de 2024, a demanda mundial por pele de jumentos cresceu
160% de 2016 a 2021. Além disso, a organização estima que pelo menos 5,9
milhões de jumentos são abatidos globalmente todos os anos para abastecer o
mercado chinês.
A previsão é que, em
2027, serão abatidos 6,8 milhões de animais em todo o mundo. Nacionalmente, a
baixa na população do animal já supera 94%. De acordo com a organização, entre
1999 e 2025, o número de jumentos caiu de 1,37 milhão para 78 mil no País.
o Ceará, a redução
também é significativa. O Estado é o segundo no ranking brasileiro de maiores
populações de asininos em 2017, atrás somente da Bahia. Os dados são do Censo
Agropecuário mais recente, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).
Segundo os números,
entre 1995 e 2017, a quantidade de cabeças de asininos saiu de 193.176 para
53.233 no Ceará. O percentual de queda ultrapassa 72%.
Ainda em 2017, o número
de estabelecimentos com efetivo de asininos no Estado (36.961) representava
pouco mais de 12% do total de estabelecimentos agropecuários cearenses
(298.930).
“Mantido o ritmo atual
de abate, existe risco real de desaparecimento populacional do jumento
brasileiro nos próximos anos, sendo que, em 2030, se o abate não parar, não
haverá mais animais”
Patrícia Tatemoto
Coordenadora de
campanhas para a América da The Donkey Sanctuary
Detran recolheu 549
asininos abandonados nas CEs entre janeiro e abril de 2026
Historicamente usado no
transporte de água, carga e deslocamento rural, o jumento nordestino perdeu
grande parte da função econômica tradicional nas últimas décadas devido à
chegada de motos, tratores e veículos motorizados, aponta Patrícia.
Sem grande valor
comercial, muitos desses animais passaram a ser abandonados e apareceram
vagando nas estradas.
Conforme informado pelo
Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE), foram recolhidos 549
asininos em situação de abandono nas margens das estradas cearenses (CEs) entre
janeiro e abril deste ano. Segundo o órgão, os animais são encaminhados aos
currais de apoio da entidade, em suas sedes regionais, e ficam aguardando a
apresentação dos tutores por sete dias
“Caso eles não se
apresentem, os animais são encaminhados à fazenda do Detran, em Santa Quitéria,
onde permanecem vivendo com toda a estrutura, tratamento e alimentação
necessária”, complementou a pasta.
O Diário do Nordeste
também questionou o Detran sobre o endereço das sedes regionais, o protocolo
para o tutor resgatar o animal, a quantidade de animais vivendo na fazenda
atualmente e o montante resgatado ao longo dos anos, mas não obteve respostas
até o momento da publicação desta matéria. O espaço permanece aberto.
Como está essa
discussão no Brasil e no mundo
No Ceará, começou a
tramitar, em 2024, o projeto de lei PL Nº 391/2024, de autoria do deputado
Renato Roseno (PSOL), que demanda a proibição do abate de jumentos no Estado.
Atualmente, a medida ainda aguarda avanço na Assembleia Legislativa do Estado
do Ceará (Alece).
Já na Bahia, o abate do
animal foi proibido em abril, após decisão da 1ª Vara Federal da Seção
Judiciária do estado. Segundo publicado nas redes sociais pela Seção Judiciária
da Bahia, a medida reconheceu a ocorrência de maus-tratos, transporte
inadequado e risco à sobrevivência da espécie.
“Não podemos pensar em
melhorar a regulação do abate mas, sim, aceitar a condição biológica da
espécie, a fim de encerrar esse mercado sob o risco de desaparecimento da
população brasileira de jumentos, riscos sanitários e reputacionais”
Patrícia Tatemoto
Coordenadora de
campanhas para a América da The Donkey Sanctuary
A proibição da
atividade também é discutida em nível mundial. Segundo Patrícia, a União
Africana (composta por 55 países) proibiu, em nível continental, o abate de
jumentos para comércio de peles.
Valor ecológico,
cultural e alternativas para a espécie
“O jumento foi o maior
desenvolvimentista do sertão. Ele participou de várias construções de cidades e
participa ainda hoje de cadeias produtivas. O jumento é muito territorialista e
pode ser usado como guarda de rebanho. Tem também a zooterapia. O jumento, por
ter um porte menor que um cavalo e ser um animal dócil, pode ser usado em
terapias com crianças e pessoas autistas. Ele também é útil em colheitas, por
acessar áreas que outros animais não têm habilidade para chegar”
Débora Façanha
ara a professora da
Ufersa, Débora Façanha, antes do valor econômico, é preciso reconhecer o valor
ecológico, histórico e cultural do jumento. Ela defende que seja feito um
trabalho de conservação do animal nordestino, com estratégias de levantamento
populacional e reinserção na sociedade.
Outra estratégia
defendida por Débora é o reconhecimento racial do jumento nordestino, com
estudos específicos para a catalogação e conservação desses animais.
“Essa raça ainda não é
reconhecida pelo Ministério da Agricultura. Os criadores dão muito valor a
animais que têm raça, que têm pedigree. O jumento nordestino é uma das raças,
mas nós temos uma outra raça ali em Minas Gerais e em São Paulo, que é o
jumento Pêga. Ele tem um valor altíssimo. Eles são de uma raça reconhecida e
têm um pedigree”, aponta Débora.
Segundo o livro
Biodiversidade dos Equídeos Iberoamericanos, da rede científica internacional
Conservação da Biodiversidade dos Animais Domésticos Locais (Conbiand), o preço
de um jumento da raça Pêga registrado varia de R$ 15.000 a mais de R$ 100.000,
dependendo da genética, linhagem e idade.
Paralelamente, em
relação à demanda do mercado chinês, Patrícia aponta que existem estudos da
Universidade Federal do Paraná (UFPR) voltados ao desenvolvimento de um
colágeno de jumento feito em laboratório.
A pesquisa ainda está
nos primeiros estágios, mas a The Donkey Sanctuary já estima um potencial de R$
2 bilhões ao ano para o País a partir do produto.
Professora da
pós-graduação em Ciência Animal da Ufersa