Nos últimos meses, os alertas climáticos soaram com
força, na mesma intensidade com que subiram as temperaturas das águas
equatoriais do Pacífico: é o risco de um super El Niño, mexendo com as
preocupações de ambientalistas, analistas climáticos e de representantes da
população em Brasília.
Em abril de 2024, o país sofreu uma grande tragédia
climática: o Rio Grande do Sul foi atingido por uma carga pluviométrica muito
acima da que podia suportar. Os rios transbordaram, a força das águas destruiu
a infraestrutura, levou casas e ceifou vidas humanas e animais. Pouco mais de
dois anos após os eventos no Sul, o Brasil avançou no trato com situações do
tipo, mas os passos se concentraram mais na remediação e menos na prevenção.
Mas o que é o El Niño e o que ele tem a ver com o
Vale do Acaraú? Trata-se de um aquecimento anormal nas águas do Oceano
Pacífico, próximo à Linha do Equador, que interfere nas correntes marítimas e
no processo de evaporação. Suas consequências são sérias: enquanto acarreta
precipitações severas no Sul e Sudeste, costuma trazer escassez prolongada para
o Norte e Nordeste.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o
fenômeno deve concentrar seus efeitos principalmente entre outubro de 2026 e
maio de 2027. A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme)
aponta risco superior a 60% de o fenômeno atingir o Ceará, causando secas
prolongadas e aumento da temperatura em até 2ºC. Em todo o Nordeste, o problema
eleva ainda o risco de queimadas, por conta da estiagem e da queda na umidade
do ar.
Um boletim conjunto de órgãos federais — como Inmet,
ANA, Cemaden e Inpe — apontou a necessidade de planejamento hídrico imediato
para o Nordeste. Apesar de estarmos saindo de uma quadra chuvosa satisfatória
em boa parte do estado, é fundamental realizar o contingenciamento e garantir o
uso eficiente dos recursos.
O El Niño pode causar prejuízos severos à economia e
à subsistência da nossa região. Caso a estiagem se confirme, os municípios
tendem a sofrer com crises de abastecimento e queda na produção agrícola e
econômica. Sem uma estrutura forte de defesa civil em nível local, os
orçamentos municipais ficam engessados, obrigando as prefeituras a dependerem
do reconhecimento de estado de emergência pelo Governo Federal.
No Parlamento, as previsões chamaram a atenção de
parlamentares ligados à pauta ambiental. Em termos de legislação, duas medidas
importantes tramitam em regime de urgência: o PL 2525/23, que cria a Política
de Adaptação Climática do Semiárido (prevendo sistemas de alerta de seca e
segurança hídrica na Caatinga); e o PL 2417/2026, de autoria da deputada
cearense Luizianne Lins (Rede), que foca nos impactos socioeconômicos das
grandes secas e busca acelerar convênios federais para a adaptação climática no
Nordeste.
Com outubro a menos de três meses de distância, questionamos
órgãos com atuação local sobre as medidas de mitigação. À Embrapa Caprinos e
Ovinos, de Sobral, perguntamos como a instituição está atuando frente à
possível escassez.
“Já passamos por vários episódios de El Niño. Nos
eventos de 2012 a 2017, nós fomos muito bem. Inclusive, alguns estados, como a
Paraíba, registraram aumento no efetivo de pequenos ruminantes, especialmente
de caprinos. Isso sinaliza de forma muito positiva que as tecnologias que temos
disponíveis para armazenar água de chuva, produzir e planejar o uso de forragem
são eficientes para viabilizar uma pecuária sustentável no Semiárido, mesmo em
anos de alta probabilidade do fenômeno”, informou a chefe geral da unidade, Ana
Clara Cavalcante.
Soluções e o debate político local
Considerando que estamos a menos de três meses das
eleições municipais, cabe fazer algumas provocações. A primeira é que
precisamos colocar o clima no debate político — esta é uma questão de
sobrevivência. Cabe questionar aos futuros representantes que logo estarão nas
ruas em busca de voto: “O que vocês planejam fazer para mitigar os efeitos da
crise climática?”
A segunda é cobrar dos atuais prefeitos e candidatos
como estão se preparando para a estiagem. O assunto afeta diretamente a vida
nas cidades e não deve ser tratado apenas quando a crise se instala, mas sim
com prevenção. É urgente destinar recursos para planos de contingência e obras
estruturantes. Da mesma forma, precisamos saber como os órgãos estaduais
apoiarão os municípios, visto que algumas microregiões já tiveram chuvas abaixo
da média na quadra recém-encerrada.
No caso do Vale do Acaraú, os dados trazem um alento
momentâneo: os açudes da bacia operam com cerca de 85% da capacidade,
distribuída principalmente entre o Araras (Varjota), Edson Queiroz (Santa
Quitéria), Taquara (Cariré) e Ayres de Sousa (Sobral). Como o rio abastece
várias cidades, o Comitê da Bacia Hidrográfica — que reúne sociedade, governo e
usuários — já delibera sobre a alocação de água e o Plano de Seca proativo.
Esse comitê, composto por braços técnicos como a COGERH, SRH, Funceme e Defesa
Civil, monitora de perto o consumo e a evaporação para evitar que a escassez
vire colapso.
Além da gestão institucional, o uso consciente da
água é uma responsabilidade coletiva. Preservar o recurso é garantir o futuro
da própria comunidade, tornando o desperdício inadmissível. Nesse sentido, é
esperado que os Serviços Autônomos de Água e Esgoto (SAAE) e a Cagece tomem uma
postura ativa, intensificando campanhas de sensibilização nas cidades da região.
Este artigo não tem o objetivo de semear o pânico,
mas de alertar para uma realidade que já faz parte do nosso cotidiano: as
emergências climáticas vieram para ficar. A responsabilidade de proteger nossas
comunidades não está apenas nas mãos dos governantes ou dos técnicos; ela
pertence a cada um de nós.
*Por Marcos Araújo
MTB 3837/CE
Publicado originalmente em Gazeta do Rio Acaraú*




.jpg)






.webp)
.webp)
.jpg)

.webp)


.webp)



