Matéria exclusiva da coluna Pop & Arte do G1
A voz emotiva
do vaqueiro Edvaldo José de Lima dá o tom da própria saga. Kara Veia saiu do
interior de Alagoas e viveu um sucesso rápido antes de morrer, em 2004, aos 31
anos. O romantismo trágico das canções e de sua história atraem um culto cada
vez maior.
Músicas como "Foi você", "Filho sem sorte" e "Mulher ingrata e fingida" são celebradas no Nordeste e por fãs de forró de vaquejada no resto do Brasil, mesmo que ele seja pouco conhecido fora desse meio.
Kara Veia atingiu picos de busca YouTube em 2021 e 2022. Seu repertório apareceu em megashows do São João desse ano. Ele é tratado como lenda por alguns dos cantores mais ouvidos no Brasil, como João Gomes, Zé Vaqueiro e Tarcísio do Acordeon.
Os fãs famosos
ajudam a puxar o "revival" nos últimos anos. No site Sua Música,
especializado em música do Nordeste, a audição das músicas dele triplicou de
2019 para 2020, e segue em alta.
"Acho que se Kara Veia estivesse vivo hoje seria um dos maiores ícones da música brasileira. Ele teria levado o forró e a vaquejada para outro nível", arrisca Tarcísio do Acordeon, que estourou ao unir pisadinha com o forró de vaquejada. Em 2021, ele gravou um álbum só com músicas do ídolo.
"Kara Veia é essencial", diz João Gomes. "Se você quer cantar vaquejada e forró, tem que escutar muito Dominguinhos, Luiz Gonzaga, e muito Kara Veia", ensina.
A vaquejada é a prática de dois vaqueiros que, de cima de cavalos, tentam derrubar um boi. É o centro de uma cultura muito ligada à música. A trilha clássica do vaqueiro é a toada. O canto melódico com vogais alongadas ao infinito é filho do aboio, o som que chama a boiada.
Foi nesse
universo que nasceu Edvaldo José de Lima, no dia 29 de dezembro de 1973, em Chã
Preta. A pequena cidade de Alagoas, na fronteira com Pernambuco, tem hoje sete
mil habitantes.
Amor
adolescente
Lenilda Félix da Conceição Lima, a Nilda, é viúva e mãe de quatro filhas do Kara Veia. Os dois se conheceram adolescentes em Chã Preta. Ele tinha 14 anos e ela, 13. Ambos trabalhavam em fazendas com os pais.
"Ele tirava leite e eu ajudava meu pai com os cavalos. Com 16 anos eu me casei com ele. Meus pais tiveram que assinar os documentos, porque a gente era muito novo", ela conta.
"Desde os 14 anos ele já cantava e fazia show", ela lembra. "O povo às vezes pagava para ele cantar e ele ia feliz da vida. Ele gostava muito de cantar toadas".
As toadas, nesse caso, são músicas a cappella, sem instrumentos. No primeiro álbum do Kara Veia, gravação amadora em parceria com Carlos Cavalcante, metade das músicas são toadas, só na voz.
Sobre o que ele cantava no primeiro álbum?
"Pé de
Umbuzeiro" conta a história da amizade entre um vaqueiro e uma árvore. O
umbuzeiro fica triste e morre depois que o vaqueiro para de passar do lado
dela, após a construção de uma estrada.
As letras
falam de amor ao campo e nostalgia do interior. Ele mistura isso com o desejo
romântico, como se o sofrimento geográfico e amoroso fossem a mesma coisa. É o
caso de "Sonho colorido". Nilda diz que ele fez a música para ela,
ainda em Chã Preta.
Cavalos
dominam as letras, mas também aparecem os carros e o desejo de ser "herói
da classe vaqueira". "Eu gosto dos meus cavalos, que de mourão é
primeira / Um carro novo do ano / Sela e freio, e cortadeira / Sou peão de
vaquejada / E herói da classe vaqueira", canta em "Peão de
vaquejada".
Filho sem
sorte
Kara Veia começou cantando essas toadas em bares e em festas de vaquejada pelo interior. Ele era também locutor de algumas vaquejadas - a forma de narração é outra influência no jeito de cantar.
Seu trabalho principal, de cuidador de cavalos, dava pouco dinheiro. Ele se mudou com Nilda para Maceió. Na capital, trabalhou em um lava jato e como servente de pedreiro, enquanto tentava emplacar na música.
"A gente tinha muita dificuldade", lembra a viúva. "Teve uma época em que a gente não tinha quase nada para comer, e quem ajudava era a mãe dele", ela conta. "A gente morou com ela, eu e as minhas quatro filhas, porque não tinha como pagar aluguel."
A mãe de Kara Veia era diarista. Ela se separou do marido e se mudou para Maceió quando ele era criança - o garoto ficou com o pai em Chã Preta, e só voltou a morar com ela quando também foi para a capital.
Vote em Kara
Veia
Ele enfrentava a vida difícil com desembaraço. Nas vaquejadas pelo Nordeste, conheceu muitos políticos locais. Ele não tinha vergonha de chegar para cada um deles e oferecer jingles na época de eleição. Assim, ganhava conexões e uma renda extra.
Ele não tocava nenhum instrumento e fazia as músicas de boca, registrando em fitas cassete. Quem o ajudou a arranjar e transformar essas criações em um projeto de uma toada pros anos 2000 foi o sanfoneiro Sebastião José Ferreira Marcelino, o Xameguinho.
Os dois se conheceram em Maceió e começaram a fazer shows de forma precária. "O."O show era muito baratinho. Nem tinha empresário, ele mesmo que vendia e não podia pagar banda", lembra Chameguinho. O jeito era tocar os dois só com um tecladista. "Depois começou a melhorar."
Kara Veia
escutava vaquejada - em especial Vavá Machado, grande referência do estilo -,
tinha a bagagem das toadas e ouvia também o sertanejo comercial e forró
eletrônico que estavam no auge no meio dos anos 90. Ele processava tudo de
forma intuitiva.
Hit sem ensaio
"Na maioria
das vezes era tudo improvisado", Chameguinho lembra dos shows. "Ele
era o primeiro a não gostar de ensaiar." Muitas vezes, Kara Veia puxava
uma música e a banda criava o arranjo na hora. "O pessoal achava que a
gente estava brincando, mas era verdade", lembra o sanfoneiro.
Fazendo seu nome aos poucos, ele conseguiu gravar um segundo CD amador, com segunda voz de outro cantor, Perreca - que, assim como Carlos Cavalcante, nem chegou a excursionar com ele.
Foi o Kara Veia que escreveu todas as músicas desse disco. Ele arranjou com Xameguinho do jeito que eles sabiam fazer.
"Ele ligou para mim e falou: 'Rapaz, estou aqui no estúdio do Rômulo. Vem para cá gravar." Chameguinho nem conhecia a música e fez o arranjo de "Foi você" ali na hora.
"Foi você" virou o primeiro hit dele no Nordeste, em 2001. Mas o sucesso não vinha estúdio, e sim do fenômeno dos registros de shows em CD-R os disquinhos graváveis populares no início dos anos 2000. Foi aí que o impacto dele no palco fez diferença e ajudou a criar o mito do Kara Veia.
"O pessoal fazia capinha de papelão, ia gravando os CDs na torre, quando saia pegava caneta, botava 'Kara Veia na cidade tal' e vendia como água", lembra Wagner Accioly, que trabalhou como operador de áudio dele durante quatro anos.
'Dançarinas de
canela fina'
Ele conseguia roubar holofotes de artistas com bem mais estrutura, lembra Wagner. "Ele dizia: 'Rapaz a gente sobe no palco com quatro músicos, três dançarinas da canela fina e o povo gosta. Aí vem Calcinha Preta com mais de trinta homens, e o povo fica gritando pela gente."
Chameguinho lembra de um festival em Pirambu (SE), que também tinha Calcinha Preta e Amado Batista. "A gente não tinha ônibus, andava só de van. Os caras tinham vários ônibus. A gente entrou, aqueles quatro gatos pingados, e a galera foi ao delírio, foi madeira", ele diz.
O nome
artístico do Edvaldo era um apelido de infância. Era uma brincadeira dos
amigos, que Xameguinho cita ao falar das desvantagens em relação a bandas
maiores.
O drama do
disco solo
O álbum “Kara Veia - a cara metade das vaquejadas” foi o grande registro da carreira dele. A gravação foi no estúdio Somax, no Recife, com distribuição pela Polydisc.
Ele regravou "Foi você" com ritmo ainda mais veloz. E fez outras versões com sua voz que levou as nuances da toada para pra esse formato de xote acelerado. O título de uma das das versões que marcou o álbum dá o tom do drama nas letras: “Mulher ingrata e fingida”.
A intensidade não estava só na música. O jeito de viver era tão caótico quanto o de trabalhar. Ele ainda estava casado com a Nilda, mas, quanto mais viajava para tocar, mais amantes arrumava. Ele vivia parte do tempo em Maceió com outra mulher, com quem teve uma filha.
Enquanto realizava o sonho de gravar em um estúdio de ponta, ele estava enrolado com os casos amorosos. Segundo os relatos de Xameguinho, é difícil saber se tinha mais drama nas letras ou fora do estúdio. Ele tinha crises de ciúmes a distância, ligando para várias mulheres.
Kara Veia gastou todo o dinheiro que tinha em cartões de crédito para celular. "Quando as mulheres não atendiam, ele ficava doido", lembra o amigo. "O dono do estúdio até falou: 'Kara Veia, vamos ver se no próximo trabalho a gente faz com mais calma, sem ficar ligando para as mulheres."
A morte de
Kara Veia
Xameguinho conta que, depois da gravação do álbum, ele desapareceu e um dia em que deveria fazer um show na Bahia. Depois de um dia com todo mundo tentando encontrá-lo, ele conseguiu ligar para um telefone público em Chã Preta, e um vizinho achou Kara Veia.
"Eu perguntei: 'O que está acontecendo, pelo amor de Deus? Você está com algum problema?' Ele disse que não tinha problema, que não foi para o show porque tinha passado o dia na mata. Eu não sei se ele estava com depressão, ou se alguém queria pegar ele. Só quem sabe era ele ", diz Chameguinho.
A esposa sabia
que o marido tinha um filho fora do casamento e se envolvia com outras
mulheres. Ela diz que ele também estava com dificuldades financeiras. "Ele
ganhou muito dinheiro, mas também gastava demais, sem necessidade." Ela
afirma que ele estava devendo R$ 10 mil quando morreu.
Nilda diz que, no dia da morte, Kara Veia tinha passado o dia em Chã Preta, que ele tomou uísque, e quando voltou para Maceió, passou na casa dela e pegou um revólver que tinha lá. "Daí eu não vi mais. Eu só vi no caixão", diz a viúva.
Ele levou a arma até o apartamento da amante em Maceió. O pai de Kara Veia estava lá, e disse à polícia que o cantor pediu para ele descer para a garagem do prédio, e que, quando ele voltou, o filho estava morto com um tiro. Kara Veia se matou aos 31 anos, no dia 27 de março de 2004.
A amante disse à polícia na época que ele tinha dificuldades financeiras, que ele brigava muito com ela e era muito ciumento, o que condiz com os outros relatos nesta reportagem.
O retrato que fica é de um cantor que soube cantar o amor de forma original na música, mas não sabia lidar com estas relações amorosas na vida real.
Nilda lamenta: "Quem mais sofreu foi ele. Ele sofreu muito para chegar onde chegou". Mesmo sabendo dos casos do marido, ela afirma: "Eu perdoei ele. Peço que Deus bote a alma dele em um bom lugar".
O legado do
vaqueiro
Com uma carreira em ascensão interrompida, o legado musical ficou em aberto. A banda pernambucana Arreio de Ouro fez uma música chamada “Homenagem ao Kara Veia”, até hoje lembrada quando se fala no cantor.
Quem mais cresceu nesse vácuo da vaquejada foi o alagoano Mano Walter. Ele foi atrás da equipe do Kara Veia depois que ele morreu para tentar contratá-los. Eles chegaram a tocar com ele, mas o novo patrão fazia uma exigência inaceitável: ensaiar antes dos shows.
"Ele levou Chameguinho, o guitarrista, o baixista. Mas a galera não se deu muito bem. Porque com Kara Veia eles eram soltos. O Mano Walter tinha uma visão mais profissional, e a galera gostava de 'tomar uma' nos shows. Então ficaram pouco tempo", explica Wagner.
Kara Veia foi sepultado por uma multidão em Chã Preta, e depois ganhou uma praça com seu nome na cidade. Os seguidores mais dedicados fazem vídeos na praça, no túmulo e até no apartamento em Maceió onde ele morreu.
Um desses fãs
é Romário Barros, engenheiro de 27 anos, dono de um canal no YouTube dedicado
ao cantor. "Eu criei em 2016, quando não tinha nenhum canal em homenagem a
ele. Foi crescendo, e hoje temos mais de 130 mil inscritos. Sempre que posto
algo é incrível o carinho das pessoas."










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