Fonte: Diário do Nordeste
Agropecuaristas cearenses ampliaram suas
preocupações diante do agravamento do problema da falta de mão de obra na zona
rural do estado. Um agroindustrial, com fazenda em um dos municípios da Região
Metropolitana de Fortaleza, transmitiu ontem, 31/05, a esta coluna a seguinte
informação:
“Na minha unidade industrial, tenho um
déficit de 26 funcionários. Como não consigo contratar formalmente, isto é, com
carteira assinada, pois no interior do estado o trabalhador prefere o ócio
remunerado pelo Bolsa Família, minha única saída tem sido a de pagar pelas
horas extras, onerando os custos de produção. E nem isto será mais possível,
porque a carga horária será reduzida em breve, quando o Senado Federal aprovar
o que já foi aprovado pela Câmara dos Deputados, ou seja, o fim da jornada 6x1
(seis dias de trabalho por um de descaso).”
Sua lamentação se resume em outra
informação:
“Todo dia entram dois e saem três. O
povo não quer trabalhar. No horário noturno, nem se fala.”
Há pouco mais de uma semana, neste mesmo
espaço, a empresária Rita Grangeiro revelou que, para a colheita do coco verde
em sua fazenda no interior do litorâneo Paracuru, está pagando à mão de obra
masculina R$ 5.900,00 por mês, com carteira assinada, o que significa a
garantia de todos os benefícios da legislação trabalhista, “e mesmo assim tenho
dificuldade para contratar mão de obra”. A mesma dificuldade ela sente, também,
para plantar e colher feijão verde ao longo de todo o ano. Por esta razão, Rita
passou a desenvolver, de uns meses para cá, uma inédita experiência: está
admitindo apenas braços femininos para a sua nova cultura – a do maracujá – “e
estou tendo bons e promissores resultados”.
De acordo com o ministério do
Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), há hoje,
em todo o país, 49.571.641 pessoas beneficiadas pelo programa Bolsa Família, as
quais compões 19.082.856 famílias. Esse programa, que transfere renda
diretamente para o bolso do beneficiário, consumirá neste ano uma montanha de
R$ 158 bilhões. Ele é considerado um dos melhores projetos sociais em execução
no mundo e tem merecido destaque de organismos internacionais porque é
eficiente no combate à pobreza extrema e à insegurança alimentar. Perfeito.
Mas o Bolsa Família tem defeitos, e o
principal deles é a falta de uma porta de saída. Os seus beneficiários – dois
terços dos quais moram ou nas sedes municipais ou na zona rural –
acostumaram-se a nada fazer, e essa ociosidade amplia-se à medida que a
legislação do Bolsa Família os impede de acumular o benefício com a renda de um
emprego formal. Isto vem causando prejuízos enormes aos diversos setores da
atividade econômica, máxime aos da agropecuária.
O Google revela que, se alguém da
família beneficiada pelo Bolsa Família obtiver um emprego temporário e sua renda
mensal subir, e se a renda por pessoa da família não ultrapassar meio
salário-mínimo (R$ 759,00, a depender do enquadramento e portarias vigentes), a
família continua no programa.
“Mas são muito poucas as pessoas do
Bolsa Família que se dispõem a encarar um emprego formal, com carteira
assinada, mesmo com essa possibilidade legal de acumulação”, como disse o mesmo
agroindustrial citado no primeiro parágrafo desta coluna.
O que mais chama a atenção é o fato de
que a mão de obra buscada pelos empresários do agro e, também, da agroindústria
é aquela de quase nenhuma qualificação. A de melhor qualidade, ou seja, a que
aprendeu nos cursos do Senai (indústria) e do Senar (agropecuária) a lidar com
a tecnologia embarcada nos equipamentos e máquinas mais modernos, até esta
parece, igualmente, encantada com o Bolsa Família, uma vez que há fábricas de
calçados e fazendas de produção de algodão e soja no interior cearense a
reclamar da falta de gente para trabalhar.
Do ponto de vista de hoje, o horizonte é
sombrio, mostrando nuvens escuras e apontando para um porvir difícil no que
tange à carência de mão de obra, com repercussão direta na produtividade do
setor produtivo, uma das mais baixas dos países de economia organizada.





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