domingo, 28 de junho de 2026

Festa para uns, sofrimento para outros: barulho de fogos na Copa acende alerta para mães de autistas em Sobral

 

Foto: Internet Reprodução

Matéria sobral.com - Escrita por Edna Mara (Estudante de Jornalismo)

Mães atípicas compartilharam com o sobral.com as dificuldades que enfrentam com os filhos autistas neste período de Copa, causadas pelo excesso da queima de fogos de artifício barulhentos. A psicóloga Claudia Roberta também explica um pouco sobre o assunto.


Alexsandra e Enzo

Alexsandra, mãe de Enzo Gabriel, que tem TEA (Transtorno do Espectro Autista), fala sobre o que ocorre com o filho durante as datas de jogos: "Sou mãe de uma criança atípica de apenas 4 anos de idade e, em período de Copa, sofremos bastante com a queima de fogos, pois o meu filho sofre com a hipersensibilidade auditiva, e isso o deixa agitado, agressivo e com choros excessivos, fazendo com que ele entre em uma crise intensa. Fazemos o uso dos abafadores, mas nem sempre eles conseguem amenizar a proporção do barulho, causando todos esses desconfortos. Essa é uma das maiores lutas das mães atípicas em período de Copa!"


Diana Paia e Davison

Já a mãe do Davison Elias de 8 anos, Diana Paiva, conta que o filho geralmente não possui tanta sensibilidade aos sons, mas que, neste período, com o excesso de barulho, acaba ficando assustado e nervoso, gerando um comportamento autoagressivo. Durante seu relato, ela chega a dizer: "Aquela zoada barulhou a mente dele como criança autista."


Claudia Roberta - Psicóloga
A psicóloga infantil Claudia Roberta explica o que acontece no sistema nervoso da criança: "Isso causa ansiedade nas famílias, antecipação do sofrimento e quebra na rotina. Crianças com TEA recebem estímulos como sons, luzes e texturas de forma mais intensa. Às vezes, apenas o barulho de um liquidificador ligado já pode causar sofrimento em algumas crianças. Os barulhos de fogos, gritos de celebração e sons muito altos provenientes dos jogos podem ser interpretados como uma ameaça pelo sistema nervoso, ativando respostas de medo, estresse e instinto de sobrevivência.

Os comportamentos percebidos são choro intenso, desorganização emocional (emoções como raiva, medo, tristeza e euforia), gritos, tentativa de fugir e agressividade.   A criança pode se autoagredir na tentativa de se regular ou até agredir pessoas próximas. Isso não é birra, é um sofrimento real devido à sobrecarga sensorial recebida pelo sistema nervoso. O mais preocupante é que a crise pode não acabar com o fim do barulho, podendo se estender por mais tempo, pois a criança perde o senso de segurança que sente em seu próprio lar. O organismo pode levar horas para retornar ao estado de equilíbrio.

Na clínica, acompanho crianças atípicas e o que tenho percebido é um aumento na agressividade, alterações na rotina e no sono, além do sofrimento intenso das mães atípicas, que se sentem completamente impotentes por não conseguirem proteger os filhos dentro da própria casa.  O que tenho orientado para as famílias é o uso de abafadores, fechar todas as portas da casa, colocar uma música calma como som de fundo e realizar alguma atividade que possa manter a criança focada durante os jogos. Mas isso é apenas uma 'redução de danos', pois os barulhos intensos podem acabar causando sérias crises que a família não consegue evitar.

O ideal seria uma conscientização coletiva quanto ao uso dos fogos, pelo menos. A celebração é genuína. Todos nós queremos comemorar um gol, vibrar e dar aquele grito de vitória, mas, se você mora próximo de uma família atípica, o respeito deve vir em primeiro lugar."

A cidade de Sobral possui uma lei aprovada pela Câmara Municipal em abril de 2018 que proíbe a queima, soltura e o manuseio de fogos de artifício, artefatos pirotécnicos, rojões e foguetes que causem poluição sonora, como estouros e estampidos (Lei nº 1.736). Entretanto, apesar da legislação, muitas pessoas ainda realizam essa prática de forma ilegal, prejudicando não apenas pessoas com TEA, mas também animais e idosos.

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