Matéria exclusiva do Sobral.com, escrita por Rachel Alvez, estudante de Jornalismo.
Mudar de país é o sonho de muitos, mas
para quem cresceu sob o sol forte de Sobral, no interior do Ceará, cruzar o
globo para viver no Japão é um desafio que exige coragem e determinação real.
Para David Aragão, essa jornada não começou com um plano milimetricamente calculado
para o Oriente, mas sim com um estalo em alto-mar, a quilômetros de distância.
Hoje, vivendo entre a tradição e a modernidade, o jovem cearense reconstrói sua
rotina sem nunca esquecer as suas raízes.
A
semente de morar fora foi plantada em 2017, durante uma viagem ao Rio de
Janeiro. David estava em uma festa em um barco, cercado por estrangeiros, e
percebeu que era o único brasileiro ali. Quando um grupo de alemães se viu
confuso para comprar caipirinhas por não entender a moeda local, ele usou seu
inglês para ajudá-los.
"Estar
naquele ambiente internacional, cercado por pessoas de diferentes
nacionalidades, culturas e idiomas, foi um momento que me marcou muito. Ali eu
percebi que queria viver essa experiência de forma mais intensa, morar fora e
conviver diariamente com pessoas do mundo inteiro", relembra David.
Movido
pelo desejo de se tornar poliglota, ele passou a pesquisar caminhos e, em 2018,
focou em programas de intercâmbio de idiomas. O destino final, contudo,
guardava uma escolha. Após se inscrever em algumas oportunidades, David foi
aprovado por uma escola na França e outra no Japão. A balança pendeu para a
terra do sol nascente por uma forte afinidade prévia com a cultura e a língua,
estreitada por sua prática no Brazilian Jiu-Jitsu — arte marcial com raízes
profundamente japonesas pelas quais ele já nutria grande admiração.
Para
que a travessia se concretizasse, a preparação linguística foi a grande ponte.
O domínio fluente do inglês, conquistado ainda no Brasil, foi o diferencial nos
processos seletivos e o seu principal porto seguro na chegada.
"Nos
primeiros momentos na escola de japonês, o inglês foi essencial para facilitar
a comunicação com a equipe, receber suporte e entender todos os processos
iniciais, até que eu conseguisse me adaptar ao idioma japonês. Além disso,
conseguir me comunicar com estudantes de diferentes nacionalidades tornou muito
mais fácil criar amizades e conexões", explica.
Mesmo
com conhecimentos fundamentais na bagagem, o desembarque em solo Japonês foi um
impacto avassalador.
"No
começo, eu não sentia que estava em outro país, mas sim em outro planeta. Quase
tudo era diferente do que eu estava acostumado: a língua, os costumes, a
alimentação, a organização, o transporte e até a forma como as pessoas se
comportam", conta.
O
primeiro grande choque físico veio do clima. David chegou ao Japão na transição
entre o fim do inverno e o início da primavera. Para quem cresceu no calor
constante de Sobral, respirar o ar extremamente gelado e perceber que não tinha
roupas adequadas para enfrentar o frio e a neve foi um teste de resistência.
Culturalmente,
a grandiosidade dos matsuri (os festivais tradicionais japoneses) e a
organização milimétrica da sociedade o deixaram impressionado. Ver trens
chegando no segundo exato, cidades impecavelmente limpas e milhões de pessoas
respeitando filas e regras de forma natural tornou-se a parte mais fascinante
da experiência.
Hoje,
consolidando sua trajetória no exterior, o sobralense olha para trás e deixa um
conselho realista e acolhedor para quem deseja seguir caminhos semelhantes.
Para ele, o segredo está em se movimentar e encarar o processo com maturidade.
"Eu
diria para a pessoa se movimentar pelos próprios sonhos. Entender que mudar de
país exige coragem e que, ao longo do caminho, será preciso abdicar de muitas
coisas e de momentos importantes com a família e os amigos. Também é
fundamental ter a mente aberta e estar disposto a viver o diferente. Nem tudo
vai ser como você imagina, e a capacidade de se adaptar faz toda a
diferença", aconselha David.
A
maior lição que ele traz na bagagem, contudo, vai além das fronteiras
geográficas:
"Acima
de tudo, cuidar da saúde mental é indispensável, independentemente da decisão
de ir ou ficar. Morar fora pode proporcionar experiências incríveis, mas também
traz desafios. Estar bem consigo mesmo é o que vai ajudar você a aproveitar as
oportunidades e enfrentar as dificuldades que inevitavelmente aparecem",
finaliza.





0 comentários:
Postar um comentário