Fonte: Diário do Nordeste
Um sacrário de madeira produzido no século XVIII,
associado à antiga missão jesuítica da Ibiapaba, deverá retornar à Igreja
Matriz de Nossa Senhora da Assunção, em Viçosa do Ceará, onde foi originalmente
instalado.
A peça, que tem quase 300 anos, está atualmente sob
a guarda do Museu Diocesano Dom José, em Sobral, e a transferência vem sendo
tratada entre as dioceses de Sobral e Tianguá, com participação do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O retorno, contudo, está condicionado à restauração
do conjunto. Segundo José Luiz Lira, diretor do Museu Diocesano Dom José, a
peça não deve ser simplesmente retirada do museu e levada para Viçosa. O
entendimento firmado entre as instituições prevê que o sacrário seja restaurado
antes de deixar Sobral.
“Não há oposição realmente quanto ao retorno dela ou
quanto a ela ser colocada no local de origem. Contudo, há essas exigências,
inclusive sob orientação de que ela fosse restaurada”, explica Lira.
Segundo ele, a restauração é necessária porque o
conjunto, feito de madeira maciça, nunca passou por um processo completo de
recuperação desde retirada da igreja, há mais de sete décadas. “Voltar
simplesmente por voltar, sem uma recuperação completa, não faz sentido. Nós
estamos destruindo a peça”, afirma o gestor.
Segundo historiadores da região de Ibiapaba, o
sacrário teve provável confecção na década de 1730. A retirada ocorreu durante
uma reforma realizada na Igreja Matriz de Viçosa do Ceará na década de 1950,
antes do Concílio Vaticano II — realizado entre 1962 e 1965, o encontro
religioso promoveu mudanças na Igreja Católica e na liturgia.
Conforme o relato do diretor do Museu Diocesano Dom
José, baseado em diferentes histórias da época, o então pároco decidiu
modificar o altar e retirou o antigo retábulo, que incluía o sacrário.
A peça ficou fora do altar e, posteriormente, a informação teria chegado ao conhecimento de Dom José Tupinambá da Frota, primeiro bispo da Diocese de Sobral. De acordo com Lira, o bispo entrou em contato com o responsável pela igreja e soube que o conjunto não seria reinstalado.
40
mil itens
fazem parte da lista de peças históricas do do Museu
Diocesano Dom José. O espaço conta com um dos maiores acervos de arte sacra do
País.
Diante disso, Dom José teria determinou que a peça
fosse levada para o Museu Diocesano Dom José, onde permanece desde então. “Não
houve imposição do bispo. A peça foi doada legalmente e isso consta no livro de
tombo”, afirma Lira.
O diretor ressalta que, na avaliação do museu, a
retirada naquele momento contribuiu para a preservação do conjunto. Segundo
ele, a peça poderia ter sido perdida caso permanecesse fora do altar e sem uma
destinação adequada.
Como
é o sacrário?
Conforme dados de catalogação do Museu Diocesano Dom
José, o tabernáculo é confeccionado em cedro policromado. A peça mede 94
centímetros de altura e 1,84 metro de comprimento.
O sacrário é formado por um elaborado conjunto de
madeira entalhada, com ornamentação típica da arte sacra colonial. A estrutura
apresenta colunas, frisos e elementos decorativos esculpidos, compondo um
retábulo.
Apesar do desgaste provocado pelo tempo, ainda é
possível observar vestígios de várias cores, especialmente nas áreas em que
permanecem pigmentos dourados, brancos e avermelhados.
Na parte central do conjunto está o elemento de
maior destaque: uma composição escultórica com a representação de Cristo
ressuscitado, cercado por figuras de anjos. A cena é emoldurada por ornamentos
de inspiração vegetal e apresenta detalhes em relevo, evidenciando o trabalho
de entalhe realizado diretamente na madeira.
Nas laterais, o conjunto é marcado por colunas
ornamentadas e painéis decorativos com formas curvas, folhas e frutos. A parte
superior possui uma composição arquitetônica escalonada, com frisos, molduras e
ornamentos que conferem ao conjunto uma aparência monumental.
Atualmente, a obra possui áreas com perda ou
desgaste da camada de pintura, fissuras, manchas e partes da madeira que
apresentam deterioração.
Segundo o pesquisador João Bosco Gaspar,
especialista em História, Cultura e Patrimônio da região de Ibiapaba, a
importância do sacrário está ligada à participação das populações indígenas na
produção da peça. Sob a coordenação dos padres da Companhia de Jesus, os
nativos da região teriam contribuído não apenas com a matéria-prima e a força
de trabalho, mas também com a elaboração dos elementos artísticos.
Para Gaspar, o trabalho conjunto entre jesuítas e
indígenas conferiu ao objeto uma “assinatura estética única”, transformando-o
em um “testemunho vivo das primeiras dinâmicas sociais e culturais
estabelecidas nos altiplanos cearenses”.
O pesquisador também destaca a singularidade artística do conjunto no patrimônio brasileiro. Segundo ele, o sacrário é uma peça “inteiramente única
em todo o território brasileiro”, sem paralelo,
inclusive, em regiões reconhecidas pela tradição barroca colonial, como Minas
Gerais
A combinação de elementos da estética jesuítica com
a interpretação artística indígena e o uso de materiais adaptados à realidade
da serra da Ibiapaba, afirma, fez do objeto um “monumento artístico
inigualável”, com relevância não apenas religiosa, mas também histórica e
cultural.
Retorno
é reivindicado por Viçosa há anos
Em Viçosa do Ceará, a volta do sacrário é
reivindicada há pelo menos uma década. Gilton Barreto, secretário de Turismo e
Cultura do município e ex-guardião do Memorial Padre Antônio Vieira, relata que
a mobilização ganhou força a partir de 2012.
Segundo Barreto, o movimento defendia não apenas o
retorno do sacrário, mas também de outras peças relacionadas à história
religiosa de Viçosa, como uma antiga imagem de Nossa Senhora da Assunção e
outros objetos que atualmente estão fora do município. “Dentro de um mês, conseguimos
mais de 10 mil assinaturas, principalmente de turistas do Piauí, que achavam
inadmissível essas peças não estarem no altar-mor da igreja matriz”, relata.
A mobilização, segundo ele, acabou dando lugar ao
diálogo institucional entre as dioceses de Sobral e Tianguá. A partir das
tratativas, foi estabelecido o entendimento para o retorno do sacrário, desde
que a peça fosse restaurada.
Barreto considera que a presença do objeto no templo
tem importância não apenas religiosa, mas também histórica. “Quando a gente
entra no altar, falta parte da nossa essência. Falta parte da nossa história,
da nossa memória e do nosso sentimento de pertencimento”, afirma.
Sacrário
faz parte de conjunto maior
O objeto que será transferido não é apenas uma
pequena estrutura utilizada para guardar as espécies eucarísticas. Segundo José
Luiz Lira, trata-se de um conjunto de madeira integrado ao antigo retábulo do
altar.
A peça é atribuída ao contexto da produção artística
desenvolvida na antiga missão jesuítica da Ibiapaba, mas Lira pondera que não
há, no acervo consultado pelo museu, documento que comprove que todo o conjunto
tenha sido produzido diretamente por indígenas.
Para o diretor, porém, a participação indígena na
produção é considerada indiscutível dentro do contexto histórico da peça. “Ela
é produto da ação indígena indiscutivelmente, ainda que eles não tenham feito o
conjunto completo. Há o trabalho deles".
Restauração é o próximo passo
O projeto de restauração já estaria aprovado,
segundo as informações apresentadas pelos entrevistados. A execução,
entretanto, ainda depende dos encaminhamentos necessários junto ao Iphan.
Inicialmente, foi marcada a devolução do sacrário para agosto deste ano. Não houve
avanço sobre a restauração. E, agora, uma nova data é aguardada.
Após a restauração, a previsão é que o sacrário seja
transportado para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção e reinstalado no
espaço onde permaneceu originalmente.
A reportagem entrou em contato com Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para colher informações sobre
a restauração do sacrário. Até o fechamento da matéria não houve resposta. O
espaço segue em aberto.
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