Fonte: Diário do Nordeste
Uma dor grande demais para continuar sendo
invisível. Na última semana, o Governo do Ceará instituiu o Dia Estadual de
Conscientização sobre a Perda Gestacional e Neonatal, a ser celebrado
anualmente, no dia 15 de outubro. A data chama atenção para a necessidade de
acolher tantas mães que perdem seus filhos ainda na barriga ou pouco depois do
nascimento, combatendo um luto silencioso que devasta famílias e chamando
atenção para a importância de um atendimento humanizado especialmente para
estas mães enlutadas.
Uma dor grande demais para continuar sendo
invisível. Na última semana, o Governo do Ceará instituiu o Dia Estadual de
Conscientização sobre a Perda Gestacional e Neonatal, a ser celebrado
anualmente, no dia 15 de outubro. A data chama atenção para a necessidade de
acolher tantas mães que perdem seus filhos ainda na barriga ou pouco depois do
nascimento, combatendo um luto silencioso que devasta famílias e chamando
atenção para a importância de um atendimento humanizado especialmente para
estas mães enlutadas.
É uma forma de dar luz e reconhecer histórias como
as de Michelle Fernandes, Evellyn Moreira, Camila Leal e Sheila Takaki, mães de
anjo que dividiram suas lutas e lutos aqui mesmo, nesta coluna. Mães de anjo
arrastadas para a escuridão, que tiveram que enfrentar a dor e se recuperar na
solidão dos braços vazios, tantas vezes sem terem sua dor reconhecidas pela
sociedade.
Michelle deu à luz Mariana, que viveu neste mundo
apenas dois dias depois de um parto difícil. Elas tentavam vencer uma infecção,
quando veio o parto prematuro. "É uma dor que lhe rouba os sentidos. Eu me
sentia só, em um luto não validado pela sociedade. As pessoas evitam falar dos
nossos filhos para nos proteger, e era isso que mais machucava”, me disse
Michelle há alguns anos.
Um amadurecimento precoce da placenta levou Evellyn
Moreira para uma cesária de emergência com 38 semanas de gestação. Arthur
nasceu em um parto tranquilo e tudo ficou bem. Aos três meses, teve uma
bronquiolite e recebeu alta. Mas semanas depois os médicos o diagnosticaram com
pneumonia. O pequeno não resistiu, depois de 11 paradas cardiorrespiratórias. O
consolo de outras pessoas trazia mais dor. “Logo vocês vão ter outro”, ouvia
Evellyn.
Camila Leal perdeu duas filhas, e não há palavra que abarque o horror de sua dor. Assim como a de Sheila Takaki, que perdeu um bebê depois de passar por duas perdas gestacionais. Eu me somo a essas mulheres. Perdi meu primogênito Francisco na barriga, com três meses de gestação e ainda hoje rezo para ele, de onde quer que ele esteja, num luto que pouco foi reconhecido.
O fato é que todos os anos, milhares de famílias
enfrentam o luto pela morte de um bebê durante a gestação, no parto ou nos
primeiros dias de vida. E a sociedade ainda está longe de acolher esse luto e
mesmo dar um tratamento mais adequado para estas mães, em caso de necessitarem
se recuperar em serviços de saúde. Não são raros os relatos de ficarem
internadas próximas a berçários ou mesmo de terem de ouvir consolos que ampliam
a dor, como se seus filhos fossem substituíveis.
Mas temos caminhado em relação a isso. Agora,
podemos por exemplo dar nome ao natimorto nos cartórios de registro civil. E
pouco a pouco as pessoas começam a se dar conta dos sonhos e planos que se vai
com aqueles fetos e bebês, já amados e desejados por seus pais. Por isso, é tão
importante celebrarmos mais esse passo do Governo do Ceará para criar o Dia da
Consciência da Perda Gestacional e Neonatal.
É mais um passo para falarmos sempre sobre isso e
explicar para a sociedade que a dor e o luto destas mães é real. Reconhecer
publicamente uma realidade que existe, mas frequentemente permanece escondida
atrás de portas fechadas e lágrimas silenciosas. Uma luta que, aqui no Ceará, é
forte dentro do grupo Da Dor ao Amor, idealizado por Lucas Ramalho e Tatiana
Viana, que, ao passar, em março de 2019, pela perda da filha Beatriz (ainda na
gestação, aos nove meses), perceberam que a perda gestacional era um assunto
pouco falado e com pouca literatura disponível. O que eles fizeram e fazem é
muito.
Quando um estado institui oficialmente uma data
dedicada à perda gestacional e neonatal, envia uma mensagem importante às
famílias: sua dor existe, merece acolhimento e não precisa ser vivida em
isolamento. Que as mães de anjo sejam acolhidas e respeitadas. Estamos juntas.





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